Surfar na Nova Zelândia foi a surpresa mais agradável que vivenciei nos últimos anos da minha vida. Quando o assunto é surf trip e ondas pelo mundo afora, pensamos quase que instantaneamente em lugares como Indonésia, Hawaii, Califórnia, Austrália e outras tantas famosas bancadas espalhadas pelo nosso planeta. No meu caso confesso que antes de ir para terra dos Kiwis, tinha dúvidas sobre a qualidade e potencial das ondas neozelandesas.

Essa história começa no início de 2011, quando eu e minha atual esposa estávamos com tudo pronto para visitar o México. Calor, água quente, cultura e surf de muita qualidade era o que estávamos procurando. Infelizmente naquela época uma enorme onda de atentados violentos contra civis, protagonizados por agentes do narcotráfico em rebelia às ações do governo estavam acontecendo no México, portanto resolvemos cancelar a viagem.

Whangamata, Nova Zelândia. Foto: André Andreoni.

Whangamata oferece direitas rápidas e extensas. Foto: André Andreoni.

Mudamos nosso rumo e decidimos ir para a Nova Zelândia. Fiquei um pouco receoso com a nossa escolha em termos de qualidade de surf e a primeira pergunta que me fiz foi: “Estou deixando de surfar ondas como Puerto Escondido, Rio Nexpa e Barra de La Cruz para surfar o que?”. Depois de passar mais de dois meses por lá, posso responder esta pergunta com a mente tranquila de quem fez um bom negócio.

Na Nova Zelândia é possível encontrar boas ondas por todos os lados, já que estamos falando de duas grandes ilhas. Os principais picos de surf estão localizados na ilha norte. Entre as várias opções que o país oferece para a prática do esporte, dois lugares se destacam. O mais famoso e conhecido pelos surfistas internacionais é Raglan, localizado no gelado mar da Tasmânia, na costa oeste da ilha norte. O outro é Gisborne que fica do outro lado da ilha, na costa leste, banhado pelo oceano Pacífico, que inclusive já foi sede do O’Neill Coldwater Classic, etapa prime do WQS.

Entre muito surf e passeios realizados em território Neozelandês, resolvi apostar minhas fichas basicamente em duas diferentes regiões para surfar, primeiro fomos para Península de Coromandel na costa leste da ilha norte, mais precisamente na cidade de Whangamata. Se no começo desse texto mencionei que surfar na Nova Zelândia foi uma agradável surpresa, sem dúvida ir para esse lugar foi a maior delas.

Whangamata é uma pequena e charmosa cidade localizada a duas horas e meia de Auckland, o potencial para o surf da região é incrível, em menos de três quilômetros é possível encontra três excelentes points para o surf. Ao lado esquerdo da Baía de Whangamata fica uma bancada de areia que os nativos chamam de Whanga Bar, um point break para esquerda que possui ondas bem divertidas e longas, nos dias clássicos as ondas podem se tornar bem mais poderosas e com boas seções tubulares, é possível ver fotos dos dias épicos de Whanga Bar em todos os bares e lojas da cidade, é de cair o queixo!

Mais para o meio da praia, perto das ilhas, fica a Main Beach que não deixa de ser um beach break de ótima qualidade, com direitas e esquerdas bem poderosas e que na maré cheia abrem bastante, é também o pico mais constante de Whanga, diversão garantida!

Por último, nesta mesma faixa de areia, só que ao lado direito de quem olha para o mar, encontrei aquilo que todos surfistas sonham encontrar um dia, um point break para a direita encravado no meio de um visual alucinante, localizado na frente da boca de um rio e com crowd quase zero. Esse pico possui ondas rápidas e em pé, que propiciam a todo momento um surf bem progressivo. Passadas largas e rápidas são necessárias para não perder as seções das ondas que estão sempre quebrando a sua frente.

A melhor pedida é sempre um pancadão seguido de boas aceleradas para continuar na parede da onda. Deixar as manobras mais ousadas para finalizar a onda é uma boa solução para quem gosta de correr e aproveitar toda a extensão e energia da onda. Nos dias maiores seções tubulares e bem rápidas podem rolar.

Seguindo viagem, cruzamos a ilha e fomos para Raglan. Chegando lá, logo percebi que estava na principal surf city da Nova Zelândia. Cidade pequena e bem aconchegante. Muitas artes influenciadas pelo espírito do surf e do mar estão espalhadas por todas as lojas, galerias e restaurantes da cidade. Uma atmosfera incrível, voltada para a paz e harmonia que o surfe causa em seus praticantes e simpatizantes.

Quanto à onda não sei nem por onde começar. Raglan é um point break para esquerda que quebra em cima de um fundo de pedras. O pico e composto por quatro seções de ondas, e as ondas parecem não terem fim, as duas primeiras seções são chamadas de Outside Indicators e Indicators. Seguindo a ordem vem Whale Bay e Manu Bay, que é o point de mais fácil acesso e mais crowdeado da região, com estacionamento localizado ao lado do pico, onde é possível tomar seu café da manhã dentro do carro olhando as ondas e se protegendo do frio.

Em todos os picos as ondas possuem seções tubulares próximas as pedras, seguidas de seções mais gordas e manobráveis. As ondas maiores e mais poderosas estão em Outside Indicators, mas nem por isso são as melhores. Todos os points possuem excelentes ondas, e como o mar muda muito rápido por lá é necessário sempre checar todos os picos antes de fazer a queda.

Alguns nativos me contaram que dependendo da força e da direção do swell é possível conectar a onda desde Outside Indicators até Manu Bay, o que seria muita onda! Pois surfei uma tarde de altas ondas por lá, onde conseguia conectar de Indicators até o fim de Whale Bay, apenas duas seções de quatro e quando a onda acabava as pernas estavam bem cansadas e o sorriso garantido no rosto. Eles dizem que é difícil, mas acontece. Só para vocês realmente entenderem sobre o que estou falando, esta onda tem o status de terceira esquerda mais longa do mundo depois de Chicama no Peru e Pavones na Costa Rica.

Para quem quiser se aventurar por aquele lado do planeta minhas principais dicas são:

  • Alugar um carro é prioridade para quem quer surfar na Nova Zelândia, pois a maioria dos picos não tem fácil acesso para quem está com as mochilas nas costas e a prancha debaixo do braço;
  • Esteja preparado para enfrentar a água gelada, um long jhon 4.3 e uma botinha para os dias mais frios são uma boa pedida;
  • A melhor época para pegar onda por lá na minha opinião é entre março e maio, pois é quando as ondulações começam a ficar mais constantes e os ventos causados pelo inverno antártico ainda não estão muito fortes.

Boas ondas a todos e sempre respeitem o mar!

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Imagens – André Andreoni e Kika Elias