Umas Viagens. Tudo começou como um blog de um surfista fissurado, que gosta de escrever e trabalha com produção de documentários, Carlos Portella.

Agora, já mais estruturado, o projeto ganha uma seção exclusiva aqui no [Surfbox], que une fotógrafos, videomakers e escritores apaixonados pelo oceano, para partilharem suas viagens e sua arte.

Com a união de diversas experiências e informações de cada um, você poderá conferir algumas dicas de viagens e picos visitados, testados e aprovados pelos autores, além de vídeos, é claro.

Sobre o autor - Mestre em Arte e Mídia pela Griffith University da Gold Coast, Austrália, Carlos Portella é casado, louco por surf e acredita no poder transformador da palavra. É poeta desde pequeno, surfista desde os 12 e há cinco anos trabalha com produção audiovisual.

Com conhecimento de roteiro, edição e filmagem, foi diretor e roteirista do documentário Descobrindo a Barra Sul, transmitido pela emissora RBS TV – Filial da Rede Globo em Santa Catarina, produziu diversos outros documentários e já publicou matérias em grandes sites e revistas especializadas de surf.

Ele já morou 3 anos na Austrália, 6 meses na França e visitou o Panamá, Uruguay, Chile, Peru, Nova Zelândia, Dinamarca, Espanha, Indonésia, além de viajar o litoral brasileiro de Norte a Sul.

Atualmente realiza também o projeto Working For Barrels, uma série de documentários que retratam a história e as belezas das culturas que recebem surfistas em paraísos como Austrália, Indonésia, França, entre outros.

Visite também o site dos projetos Working For Barrels e Umas Viagens. Apoio: Bali Surf Connection.

Atualmente, Carlos Portella está de passagem pela Indonésia, onde há duas semanas conheceu a lendária esquerda de Desert Point, em Lombok. Confira abaixo suas impressões sobre o que encontrou por lá.

 

Lombok, Indonésia. Frame: Carlos Portella.

O caminho para a realização em Lombok, Indonésia. Frame: Carlos Portella.

Umas Viagens – A barca para Desert

Por Carlos Portella

 
Sem dúvida alguma: A melhor onda do mundo. O Superbank australiano ficou pequeno. Muita pressão. Ondas longas e perfeitas. Tubos, tubos e mais tubos.

A barca começou às 8 da noite de uma quinta-feira, 19 de abril. Lotamos o carro de pranchas e equipamentos. Fomos eu, a Laura (minha esposa) e o amigo que conhecemos em Bali, Makon Gall, para jantar no Warung PF Brasil. Lá encontramos o brasileiro Hugo Monfort, que faz o PF Brasileiro mais famosos de Bali. A ideia era jantar e tocar em comboio com o Hugo que conhece o caminho como ninguém.

O carro que alugamos era gigante. Seria um desperdício irmos apenas em três. O Hugo queria ir de moto pois voltaria mais cedo. Chegando lá, um casal cheio de malas querendo ir de moto… Querem vir junto? Toca!

Depois de altos rangos, partimos. Uma hora e meia de carro até Padang Bay. Chegando lá, fila pra entrar no ferry. Espera. Espera. Espera… Muita gente. Motos, caminhões, pedestres e um monte de surfistas entre os locais. Surfistas eram os únicos turistas daquele transporte público que oferece a travessia entre as ilhas de Bali e Lombok no menor custo. Espera mais um pouco. Um caminhão quebrou lá dentro. Espera…

A travessia seria de 5 horas. O ideal é pegar uma cabine para dormir tranquilo. Nosso carro foi último a entrar na Balsa. Quem disse que tinha cabine sobrando. Mas tem “colchão” pra alugar. Negociamos e fomos procurar um local pra se jogar. Tudo lotado. Gente pra tudo que é canto.

Vasculhando bem, achamos um pico na frente da cabine de comando. Ao relento. Vista de primeira para as estrelas e ventilador natural da velocidade do barco. Perfeito! Caimos no sono… Não por muito tempo. Uma nuvem carregada passageira resolveu descarregar logo em cima do Ferry. Corre! Correria por todo o convés! E dalhe procurar outro pico. Tivemos a sorte de achar um quarto silencioso com ar condicionado cheio de gente. Pegamos o último espaço no chão. Dormimos feito crianças.

Chegamos em Lombok por volta das 6 da manhã. Pega o carro e toca… Dirigimos mais uma hora na estrada mais linda do mundo. Uma ruela que vai contornando o mar paradisíaco sem traço algum de civilização. Apenas alguns vilarejos esquecidos. Quando não estava perto do mar, a Estrada ia pelo meio do mato. Os três quilômetros finais são bizarros. Não é estrada de chão. É Estrada de pedra.

Depois de toda essa jornada, a recompensa: Ondas perfeitas em um pico especial!

Nosso quarto tinha vista para o mar ao lado dos quartos dos amigos. O quarto de palha equipado com um colchão, um mosquetero e nada mais, foi o suficiente para dormir. O banheiro com um teto estrelado e um buraco no chão com um sistema de descarga rudimentar era tudo o que precisávamos. E pra completar, o banho era com água do poço, de baldada ao relento.

Não poderia ser melhor. Conexão total com a natureza e com o povo local. Um clima de família entre os surfistas.
E as ondas bombando. Bombando! Fim de tarde tinham quatro pessoas na água. Algumas séries grandes demais não quebravam tubo… Não dá nada! Perfeito! Nos três dias seguintes, a alegria foi total.

Eu e a Laura fomos a Desert com a intenção de vender imagens pra galera a fim de tirar um trocado. Mas se eu ficasse filmando o tempo todo eu morria! Fluiu tudo perfeitamente. Eu filmavam um pouco, depois a Laura filmava e eu ia surfar.

Na volta do surfe eu pegava as imagens e começava a correr atrás dos surfistas identificados. Felicidade total quando começamos a fechar negócios. Rendeu legal. Dentre os clintes, estavam os surfistas profissionais Ian Gouveia, Jessé Mendes e Kiron Jabour, que fizeram um show a parte, dominando os tubos como niguém. Altas imagens capturadas!

Teve também um francês quebrando tudo, que de tanto se jogar nos tubos, quebrou a cabeça. Acertou com a cabeça nos corais e abriu um buraco. Normal. Foi pro hospital, tomou uns pontos e está vivo. Além dos pontos, está cheio de tubos na cabeça.

O swell baixou e voltamos pra casa com a cabeça feita e sorriso no rosto. Estrada, ferry e a saudade dos tubos crescendo a cada instante.

Chegando em Bali, O camarada Makon Gall quis que eu editasse um vídeo pra ele da barca. O resultado está no vídeo abaixo:

Imagens – Carlos Portella e Laura Carvalho
Edição – Carlos Portella