Muito embaixo da terra, onde a serpente cadáver morde as raízes da Yggdrasil, árvore da vida, há três fiandeiras, as quais tecem o nosso destino. Assim pensavam os saxões. Eis que as fiandeiras sentaram-me numa confortável poltrona vermelha, decorada com grandes botões dourados, a poltrona da oportunidade. Em frente a essa poltrona, sentou-se Simon Anderson, o australiano criador da prancha triquilha. Era a minha oportunidade. E essa oportunidade transformou-se em um dos relatos mais detalhados de quando a triquilha Thruster fora, em 1981, apresentada ao mundo.

“Eu estive no campeonato Stubbies, em Burleigh Heads, na Gold Coast, para, silenciosamente, introduzir a triquilha em uma competição profissional. No round 1, eu surfaria contra Maurice Cole, o qual batalhou nos trials para conseguir uma vaga no evento principal. As ondas quebravam depois das rochas na maré alta e, no inside, estavam com o tamanho de 1 pé em média, com ninguém por perto. Maurice venceu a bateria, e eu fui eliminado, o que, certamente, não foi uma ótima maneira para a Thruster começar. Mark Richards venceu a final do Stubbies de 1981 contra Dane Kealoha, ambos surfando de biquilhas.

Resolvi viajar com antecedência para Bells Beach, onde aconteceria o próximo evento, o Rip Curl Easter Pro (Rip Curl Pro Bells Beach). Antes de iniciar o evento em Bells, peguei boas ondas em Bird Rock e, também, em Winkipop. Minhas pranchas estavam boas, faziam tudo o que uma triquilha Thruster faz, como grandes arcos e trocas de direção em alta velocidade. No primeiro round, as ondas estavam de 3 a 5 pés, ou seja, condições de razoáveis para boas em se tratando de Bells. A triquilha venceu sua primeira bateria contra o surfista havaiano Louis Ferriera, mas ninguém notou muita coisa. No dia seguinte, o round 2 aconteceria, também em Bells, com ondas épicas e lindamente lisas de 10 a 12 pés, ocasionalmente com séries maiores. Todos os surfistas estavam desesperados para achar uma prancha maior. Eu estava na bateria 6 contra Bobby Owens, um competidor difícil de ser batido em grandes ondas como as que rolavam naquele dia. Bobby, crescido no North Shore havaiano, era um experiente surfista em Sunset Beach e patrocinado pela Hot Buttered Surfboards. Ele conseguiu uma boa semi gun 6’5’’ monoquilha para aquele dia. A minha prancha era uma semi gun 6’6’’ triquilha, a qual eu achava que daria conta, embora eu apenas tivesse surfado com ela em ondas três vezes menores do que aquelas.

Simon Anderson. Foto: Arquivo Pessoal.

Criatura e criador. Simon Anderson expande o limite dos arcos em alta velocidade. Foto: Arquivo Pessoal.

Quinze minutos antes da bateria, começamos a remar em direção ao outside, até que eu cheguei ao canal entre Bells Bowl e Winkipop Button, esta uma rocha exposta de mais de 100 metros de comprimento, a qual segue mar adentro a partir da praia. Durante a remada, tive de mergulhar para passar uma série, mas a minha cordinha arrebentou, então fui obrigado a nadar em direção à praia. Por sorte, minha prancha não foi danificada. Meu irmão Mark recuperou-a antes de ela ser esmagada e lavada no paredão de rochas de Winkipop. Troquei a cordinha e segui, novamente, rumo ao outside. Tive de mergulhar várias vezes para passar as séries, mas, dessa vez, a cordinha manteve-se íntegra, sem arrebentar. Com trinta segundos antes do início da bateria, consegui posicionar-me à espera da próxima série.

Embora as ondas estivessem lisas e perfeitas, estavam tão grandes que quebravam na seção mais lá de fora do recife, consistentemente no mesmo lugar. Essa é uma situação incomum para Bells, entretanto foi bom para nós, pois facilitava a subida em cima de pranchas pequenas como as quais Bobby e eu utilizávamos. Na minha primeira onda, preferi pegar leve e surfar mais tranquilamente. Não sabia se a prancha iria aguentar a cavada e as manobras.

Na onda seguinte, eu estava tão impressionado com a beleza das ondas e como suas faces eram lisas que dropei atrasado. A prancha segurou bem na cavada. Logo em seguida, dei uma rasgada no meio da face da onda, mas não fiquei satisfeito. Eu tinha certeza de que a triquilha poderia andar com mais força e velocidade do que ela havia me demonstrado nas duas primeiras ondas.

Na terceira onda, eu estava fundo, então tive de fazer uma linha mais alta para conseguir alcançar a parte limpa e poder seguir reto nela. Na hora da cavada, empurrei a prancha com mais força do que o fiz na primeira onda. Ela respondeu lindamente, com segurança e velocidade, então comecei a fazer arcos ao longo de toda a onda. Em um certo momento, a prancha conectou, velozmente, até o lip, onde realizei um grande carve na face da onda, seguindo até lá embaixo na base da mesma. Enquanto isso, Bobby surfava como se estivesse em Sunset. Na maior onda da bateria, ele fez uma boa cavada, então, inesperadamente, na transição para parte superior da mesma, o lip quebrou sobre ele. Ele desapareceu momentaneamente, voltando à superfície um tempo depois. Mesmo com a queda, os juízes pontuaram muito bem aquela que seria uma das melhores ondas do dia. Bobby estava, assim, com a maior nota da nossa bateria. Foi por pouco, mas a triquilha venceu a sua segunda bateria. Entretanto, dessa vez, diferentemente do que acontecera ao final da primeira bateria, os surfistas pareciam ter notado o que a triquilha Thruster era capaz de fazer, e eu fui bombardeado com inúmeras perguntas sobre a prancha e as quilhas.”

O épico, histórico e memorável Rip Curl Pro Bells Beach de 1981, não à toa, dias depois, foi vencido por aquele que, a partir de então, iniciaria uma das maiores revoluções no surf com a introdução da triquilha, o australiano Simon Anderson.

Lohran Anguera Lima é editor do blog Near the Ocean.